Cigarro eletrônico supera tabaco convencional entre jovens e registra níveis de nicotina até seis vezes maiores que o cigarro
O pneumologista cooperado da Unimed Goiânia, Dr. Evandro Alencar Scussiatto, explica que o vape causa danos agudos desde as primeiras semanas de uso e que não existe tempo seguro de exposição
De acordo com o Ministério da Saúde, a proporção de adultos fumantes nas capitais brasileiras saltou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, um crescimento de 25% em apenas um ano. No mesmo período, o cigarro eletrônico consolidou sua presença entre os jovens, o consumo do cigarro tradicional entre adolescentes caiu de 6,8% em 2019 para 5,6% em 2024, enquanto o vape se tornou a principal porta de entrada para a dependência de nicotina entre os jovens.
O pneumologista cooperado da Unimed Goiânia, Dr. Evandro Alencar Scussiatto, aponta que o crescimento do vape entre quem nunca fumou revela uma mudança no perfil do dependente de nicotina no Brasil. “O cigarro eletrônico atrai não fumantes com a falsa sensação de segurança. A nicotina nos vapes é tão ou mais viciante que no cigarro convencional, além de conter metais pesados e solventes. Os aerossóis contêm formaldeído, acroleína, diacetil e partículas ultrafinas que alcançam os alvéolos. Não existe tempo seguro de exposição”, afirma.
Nicotina sem controle
O InCor, em parceria com a Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo e o Laboratório de Toxicologia da FMUSP, realizou um estudo inédito com mais de 400 usuários de cigarros eletrônicos em bares, shows e eventos no estado de São Paulo. Os resultados mostraram que os níveis de nicotina nos usuários com consumo diário e intenso chegam a ser até seis vezes superiores aos encontrados em fumantes de 20 cigarros por dia, com concentrações chegando a 4.530 ng/ml, contra uma média de 400 ng/ml nos fumantes convencionais.
Enquanto um fumante de cigarro tradicional costuma dar cerca de 200 tragadas por dia, usuários de cigarro eletrônico com consumo elevado podem chegar a 1.500 tragadas diárias. O estudo também revelou que 54% dos participantes não sabiam se o produto continha nicotina, e 8% afirmaram que não havia nicotina, mas, nesse subgrupo, a pesquisa encontrou a substância em 55% das amostras.
Dr. Scussiatto detalha que os danos do vape não seguem o tempo do cigarro convencional. “Com o vape, já foram documentados casos de insuficiência respiratória aguda, EVALI, lesão pulmonar associada ao cigarro eletrônico, e bronquiolite obliterante após três meses de uso diário. O uso por curto período já eleva frequência cardíaca, provoca inflamação sistêmica e disfunção endotelial.”
Parar de fumar e o papel do tratamento
Sem auxílio profissional, apenas 3% a 5% dos fumantes conseguem interromper o tabagismo de forma duradoura. Com tratamento combinando farmacologia e abordagem motivacional, esse índice pode superar 70%. “O tratamento existe e tem resultado comprovado. Os sinais de que a pessoa precisa de ajuda especializada incluem fumar mais de dez cigarros por dia, tentativas anteriores sem resultado, necessidade de fumar nos primeiros trinta minutos após acordar e sintomas como ansiedade e insônia ao tentar parar”, orienta Dr. Evandro Scussiatto.
Reino Unido proíbe venda para toda uma geração
Em 20 de abril de 2026, o Parlamento do Reino Unido aprovou o Tobacco and Vapes Bill, que proíbe permanentemente a venda de produtos de tabaco a pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009. A lei entra em vigor em janeiro de 2027, com mecanismo progressivo, a cada ano, a idade mínima para compra de cigarros sobe um ano, até que a restrição alcance toda a população. A legislação também proíbe vapes em veículos com crianças e nas proximidades de escolas e restringe sabores voltados ao público jovem. A Nova Zelândia foi o primeiro país a adotar critério semelhante, em 2022.